Uma família louca, desestruturada, envolta em traições, disputas por poder e fadada a tragédia. Assim pode-se descrever a estranha e bizarra família retratada no espetáculo Mi Muñequita, em cartaz em Florianópolis. É a estória de degradação e tragédia do convívio entre quatro paredes.
O espetáculo apresentado até o final de novembro no teatro da U.B.R.O. tem uma produção bastante cuidada em muitos detalhes. Da cenografia de Marcelo Nuernberg Schroeder, a maquiagem de Robson Vieira, aos figurinos de Loli Menezes, tudo costurado pelo experiente ator, em sua estréia como diretor, Renato Turnes, todos os detalhes se encaixam, se cruzam e fazem um grande visual.
Somados ao visual, que lembra antigos espetáculos de teatro de revista, um elenco preciso, bem ensaiado e forte em sua cumplicidade em cena, conta a estória de Nena (Monica Siedler), uma garota que não cresceu nos padrões familiares convencionais e busca a liberdade e felicidade de alguém que não vive, apenas existe. Uma garota que não pode morrer pois nunca se sentiu viva.
A peça escrita pelo uruguaio Gabriel Calderón, é sucesso em seu país há alguns anos. Nesta primeira montagem brasileira, a ótima tradução ficou a cargo do também uruguaio, radicado em Florianópolis, Esteban Campanela, com adaptações feitas pela produção do espetáculo, com toques regionalistas. Os nomes dos personagens, assim como alguns trechos da trama foram mantidos no idioma original, dando um ar ainda mais cômico a versão nacional. Um dos destaques são os acessos de histeria de
Nena e sua boneca Huerfanita (órfãzinha no espanhol) são confidentes e amigas, parceiras nos dramas e nas tramas. Huerfanita (Sabrina Gizela) é o lado obscuro e vil da doce Nena que sofre a pressão e os abusos familiares, ela é o alter-ego da garota que se sente órfã em uma família que não é presente como gostaria. A presença da família chega até Nena através de abusos, pressões e recriminações. Vale ressaltar o brilhante desempenho de Sabrina Gizela, como a boneca Huerfanita, que ao abrir de cortinas deixa o espectador em dúvida se ali está realmente uma boneca em tamanho natural ou uma ótima atriz.
As figuras masculinas da família, El Padre e El Tio, respectivamente Alvaro Guarnieri e Malcon Bauer, são tipos distintos e ao mesmo tempo parecidos. Os dois são tipos egoístas, machistas e grosseiros com seus desejos e prazeres na vida. Enquanto um abusa de Nena o outro a ignora causando na garota igual decepção e tristeza.
A estória de Nena e sua família, narrada por El Presentador, interpretado por Paulo Vasilescu em grande atuação, tem momentos trágicos e cômicos, entremeados por músicas melosas e cafonas dando um toque de dramalhão esquizofrênico às trágicas e hilárias situações